segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Tudo o que eu queria






Tudo o que eu queria era estar no meio de um monte alentejano, sem ninguém à volta, à noite, debaixo daquele céu estrelado que só quem já lá foi conhece. Era eu e a minha guitarra, a tocar e cantar a Exit Music, dos Radiohead, sem desafinar. E prometo que seria a minha melhor interpretação de sempre. De certeza que não me ia falhar a voz e não ia ter medo de gritar no momento alto da canção, e ia conseguir atingir o agudo certo, porque me dói. E também ia atingir o grave certo, porque levava comigo a minha ginjinha. E ia ser perfeito, porque não ia estar ninguém a ouvir. Só as oliveiras.


Já lá fui e sei que às vezes nem os insectos se fazem ouvir. E há um monte, com uma pequena igreja no topo, onde se vê a vila ao longe, e não está lá ninguém. E ia ser óptimo.


Tudo o que eu queria era que nunca mais ninguém me dissesse que estava sempre "lá" se eu precisasse de algo. Odeio. Odeio o "se". Odeio o "lá". Mas se o quê? E "lá", onde? Essa expressão só se aplicaria no caso de pessoas em que já sei que as quero "aqui" e não "lá". Sim, porque se eu quero, se eu sempre quis, não faz sentido o "se" e o "lá". A pessoa estaria "aqui" e nunca passaria a estar ali, porque se é "sempre", então desde sempre eu a quis "aqui", e o "lá" não tem qualquer nexo. Para além disso, se eu quero e sempre quis, a pessoa nem precisa de dizer o "se" quiseres. E, claro, "precisar de alguma coisa" também tem algo que se lhe diga. O que é que eu posso precisar que tenham para me dar as pessoas que usam essa frase? Se preciso delas, é delas que preciso, e não de alguma coisa. E já que estou nisto, essa ou essas pessoas, sabem, por natureza, que as quero a elas, e a mais nada. Portanto, das duas uma, ou estão caladas e limitam-se a estar presentes antes que eu precise, ou então, se não podem estar presentes "aqui", também não digam nada, porque sabem que não me podem satisfazer com a sua presença. Se não podes estar comigo não estejas, mas então... não me digas que "estás lá sempre".


No fundo, é a frase mais estúpida que me lembro agora. Mas pronto... aceito que às vezes é preciso um desbloqueador de conversa ou um esfregão que nos limpe a alma da consciência pesada.


Tudo o que eu queria era não estar triste, desamparado. Gelado.


Tudo o que eu queria era estar a cantar e a tocar essa música, e estivesses escondida atrás de uma árvore a ouvir-me cantar, e que te deliciasses. E que depois viesses para o pé de mim e eu faria aquela cara de surpreendido, "tu? aqui? não me digas que estavas a ouvir!".

E depois fazias-me companhia e não havia tempo nem lugar. E finalmente olhavas para mim, olhos nos olhos, tímidos mas sem medo, e ficávamos ambos de respiração suspensa, mas satisfeitos como se tivéssemos respirado fundo.


Tudo o que eu queria era que a minha teoria das probabilidades sobre as paixões desmedidas e correspondidas fosse posta em causa por ti. Eu diria: "a probabilidade de eu gostar de ti é pequena, porque és uma rapariga no meio do mundo, e a probabilidade de gostares de mim também é pequena, porque eu sou apenas um rapaz no mundo; para além disso, somos ambos muito esquisitinhos e exigentes; para sabermos a probabilidade de gostarmos igualmente um do outro, temos de calcular o produto dessas pequenas probabilidades, e sabendo que o produto de probabilidades ínfimas dará uma probabilidade ainda mais ínfima, estima-se que será muito difícil quaisquer duas pessoas como nós gostarem uma da outra", e tu logo me interromperias e dizias: "isso às vezes falha, porque eu gosto de ti e acho que também gostas de mim".


E compreenderias todas as parvoíces e filosofias que eu te contava, e estarias sempre curiosa por mais, sempre com paciência desmedida. E ficavas maravilhada com o meu brilhantismo.


Tudo o que eu queria nesse momento era um pirezinho de azeitonas, já agora.
Se não fosse muito incómodo.

4 comentários:

Unknown disse...

Apenas trocaria o cenário do alentejo pelo planalto beirão, que me é mais familiar.

O resto... há um ano e meio que queria ser capaz de escrever estas mesmas palavras. Está aí tudo.

Um abraço de "compreensão"...

Windumanoth disse...

Pois eu sou capaz de o escrever neste mesmo momento...
Também queria sentir o beijo preguiçoso do sol alentejano na minha pele...
E o pratinho de azeitonas...
E o barulho dos chocalhos lá ao fundo...
E o cheiro a feno.A vida.A calma.

Muitos parabéns!

SofiaP. disse...

De facto ao ler tais palavras, tais descrições, senti algo profundo, cheguei até mesmo a fazer uma comparação, pelo que sinto neste momento, sentir algo forte , por uma pessoa, que está muito longe, e iludida por várias situações, fraquejei e acreditei mesmo depois dele ir,
...iria esperar por ele, eu sei que consigo.
Pensei.
Mas será que ele pensa assim, ou pensou? Quando me fez acreditar nisso...
Acredito que quando estamos nesse "estado", sentimos tudo em dobro, acreditamos em todas as palavras.
Mas a vida é assim,
ou nós a fazemos assim,
mas com força basta virar a página... e seguir em frente.
um beijo

365 disse...

Passei aqui só para te dar os parabens pelo excelente texto. Mesmo muito, muito bom!